Trinta ou quarenta anos atrás, quando alguém
roubava, isso era chamado de roubo. Quando um jornal fazia uma reportagem
tratando de problemas na administração pública, isso era chamado de reportagem.
Quando alguém queria dar um golpe de estado, isso era chamado de golpe de
estado.
Claro que não foi apenas a língua portuguesa que mudou. O
modo de pensar estranhamente começou a ser afetado. Trinta anos atrás surgiu um
partido que prometia muita coisa. Parecia ser algo novo no espectro político
nacional. Tal partido utilizou muito a imprensa para atingir suas finalidades,
para denunciar falcatruas, para pressionar adversários, para levantar a bola
para promotores públicos.
Naquele tempo, chefes, chefinhos e chefões do partido
apontavam as mazelas alheias, criticavam os coronéis do sertão e seus métodos
toscos de compra dos eleitores. Chegaram a criticar programas sociais de
partidos adversários e depois se apossaram da ideia e recriaram com outro
nome. Antigamente isso seria
denunciado como trapaça, como mentira ou apropriação indébita.
Então, naquele tempo em que tal partido surgiu, a imprensa
funcionava como o estilingue para atirar pedras no telhado dos governos
adversários. Vagarosamente, assim que o partido foi crescendo e criando raízes,
começaram as criticas à imprensa, à promotoria, às instituições como o Tribunal
de Contas da União que, como se sabe, analisa o lisura dos procedimentos, em
nome da economia do dinheiro público.
Costumo dizer a alunos que fazer jornalismo bem feito dá
trabalho. Reportagens precisam ser bem fundamentadas. Não há atalhos. Assim
também ocorre com as obras públicas.É preciso contratar obras do modo correto,
para evitar que o dinheiro público se perca no caminho. Os desvios podem ser
perigosos. Não fiscalizados podem
gerar muita corrupção.
Foi assim que, com o passar dos anos, a imprensa tanto podia
ajudar como atrapalhar. Isto é, à
medida em que o discurso de oposição sistemática, de atirar pedras (e
isso rende muitas matérias) foi sendo pressionado pela realidade, à medida em
que o partido, de oposição, começou a ser situação, as denúncias sobre mau uso
de dinheiro público, ou outros problemas, começaram a irritar os agora
transformados em telhado.
Tudo seguiria o ritmo normal. Ora você se junta à imprensa e
faz denúncias. Ora você, estando no lado oposto, acha que a imprensa atrapalha.
Isso faz parte do jogo. Ocorre que o jogo de tal partido nunca foi bem
esclarecido para a população.
Agora, com o escândalo do Mensalão, é que se percebe qual
era a natureza do jogo. A imprensa é boa quando serve de estilingue contra
adversários que estão na situação. Quando a coisa se inverte, tenta-se calar a
imprensa com ameaças de controle da mídia.
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Por causa disso é que se percebe ser necessário um manual para compreender bem o que
dizem tais lideres partidários e pessoas de influência ligadas a tal partido.
Exemplos simples, mas funcionais:
a. não havia pior inimigo que Fernando Collor de Mello, quase
o próprio capeta. Tão do mal que precisou ser cassado.
b. não havia pior inimigo que José Sarney. Há inúmeras
declarações na imprensa impressa e vídeos que comprovam toda a maldade que
emanava dele, segundo o tal partido.
c. não havia pior que o deputado Paulo Maluf. Tão do mal que
foi denunciado por deputado do partido que chegou um dia a ministro de estado,
e recebeu a triste determinação da Justiça para devolver o que foi desviado dos
cofre públicos: R$ 21 milhões.
Está certo que uma quantia relativamente insignificante perto do
conjunto que deve ter sido desviado entre o caso Mensalão e os enraizamentos de empresas como a Delta no quadro de obras governamentais.
Ao lado de quem estão hoje aqueles agentes do Mal?
O manual serve para que entendamos, então, porque a imprensa era
legal, bacana, do bem, quando denunciava
Collor, Sarney ou Maluf, e agora é do mal quando trata da aliança de Maluf
com Haddad, ou quando faz reportagens sobre o Mensalão, ou quando aborda uma
coisa que preocupa milhões de eleitores paulistanos religiosos e conservadores
(pessoas têm o direito de serem religiosas e conservadoras, não é nem pecado,
nem crime) como política de saúde quem envolvem o aborto e de educação que envolvem algo como o chamado kit-gay.
Uma filósofa muito badalada em São Paulo, que nem falava o nome de Maluf, recusou-se a comentar a união estável entre o seu partido e o PP de Paulo Maluf. Em recente palestra, uma vez o casamento consumado, colocou Paulo Maluf na estirpe dos grandes prefeitos de São Paulo, na linha de Faria Lima. Uau! Talvez um telefonema de alguém realmente importante a tenha feito mudar de posição. Talvez um exame de consciência tenha feito Chaui mudar de opinião. Seria bom usar o manual para entender como isto aconteceu.
Quanto mais enraizado no sistema, mais o tal partido critica
a mesma imprensa que cortejava; critica a mesma justiça que usava contra seus
adversários; se associa aos mesmos demônios que acusava de inimigos do povo.
Então, caro leitor, guarde que crime continua sendo crime,
embora agora digam que o erro é da justiça por condenar e sentenciar
criminosos. Os criminosos dos outros são criminosos; os próprios são perseguidos pela imprensa e pela Justiça.
Roubar do povo é crime sempre. Corrupção continua sendo corrupção. A Constituição é uma só para todos os brasileiros.
Observe, caro leitor, como agora querem condenar o
mensageiro (a imprensa) pelas más notícias. De fato, as coisas continuam sendo
vistas pelo povo como sempre foram: crime é crime; ladrão é ladrão; corrupção é
corrupção; jornalismo é jornalismo e justiça é justiça.
Menos para os que, agora, mostram a real natureza
autoritária e totalitária de sua alma, que despreza e sempre desprezou a
liberdade de imprensa e a justiça soberana como um dos poderes independentes da
República.
É essa língua estranha que querem exportar para São Paulo.
PT SAUDAÇÕES.
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