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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

A CENSURA À IMPRENSA ESTÁ A CAMINHO. Ou, o apoio ao Wikileaks é típico dos que não gostam da democracia.

Este artigo do professor Demétrio Magnoli, publicado originalmente em O Estado de S. Paulo (23/12/2010), deve ser lido com a máxima atenção, desde que você goste da liberdade de imprensa.
HERÓI SEM NENHUM CARÁTER
Lula jamais protestou contra o monopólio da imprensa pelo governo cubano e nunca deu um passo à frente para pedir pelo direito à expressão dos dissidentes no Irã. Ele sempre ofereceu respaldo aos arautos da ideia de cerceamento da liberdade de imprensa no Brasil. Mas é incondicional quando se trata de Julian Assange: "Vamos protestar contra aqueles que censuraram o WikiLeaks. Vamos fazer manifestação, porque liberdade de imprensa não tem meia cara, liberdade de imprensa é total e absoluta."
Assange é um estranho herói. No Brasil, o chefe do WikiLeaks converteu-se em ícone da turba de militantes fanáticos do "controle social da mídia" e de blogueiros chapa-branca, que operam como porta-vozes informais de Franklin Martins, o ministro da Verdade Oficial. Até mesmo os governos de Cuba e da Venezuela ensaiaram incensá-lo, antes de emergirem mensagens que os constrangem. Por que os inimigos da imprensa independente adotaram Assange como um dos seus?
A resposta tem duas partes. A primeira: o WikiLeaks não é imprensa - e, num sentido crucial, representa o avesso do jornalismo.
O WikiLeaks publica - ou ameaça publicar, o que dá no mesmo - tudo que cai nas suas mãos. Assange pretende atingir aquilo que julga serem "poderes malignos". No caso de tais alvos, selecionados segundo critérios ideológicos pessoais, não reconhece nenhum direito à confidencialidade. Cinco grandes jornais (The Guardian, El País, The New York Times, Le Monde e Der Spiegel) emprestaram suas etiquetas e sua credibilidade à mais recente série de vazamentos. Nesse episódio, que é diferente dos documentos sobre a guerra no Afeganistão, os cinco veículos rompem um princípio venerável do jornalismo.
A imprensa não publica tudo o que obtém. O jornalismo reconhece o direito à confidencialidade no intercâmbio normal de análises que circulam nas agências de Estado, nas instituições públicas e nas empresas.
A ruptura do princípio constitui exceção, regulada pelo critério do interesse público. Os "Papéis do Pentágono" só foram expostos, em 1971, porque evidenciavam que o governo americano ludibriava sistematicamente a opinião pública, ao fornecer informações falsas sobre o envolvimento militar na Indochina. A mentira, a violação da legalidade, a corrupção não estão cobertas pelo direito à confidencialidade.
Interesse público é um conceito irredutível à noção vulgar de curiosidade pública. Na imensa massa dos vazamentos mais recentes, não há novidades verdadeiras. De fato, não existem notícias - exceto, claro, o escândalo que é o próprio vazamento. A leitura de uma mensagem na qual um diplomata descreve traços do caráter de um estadista pode satisfazer a nossa curiosidade, mas não atende ao critério do interesse público. O jornalismo reconhece na confidencialidade um direito democrático - isto é, um interesse público. O WikiLeaks confunde o interesse público com a vontade de Assange porque não se enxerga como participante do jogo democrático. É apenas natural que tenha conquistado tantos admiradores entre os detratores da democracia.
Há, porém, algo mais que uma afinidade ideológica, de resto precária. A segunda parte da resposta: os inimigos da liberdade de imprensa torcem pelo esmagamento do WikiLeaks por uma ofensiva ilegal de Washington.
No Irã, na China ou em Cuba, um Assange sortudo passaria o resto de seus dias num cárcere. Nos EUA, não há leis que permitam condená-lo. As leis americanas sobre espionagem aplicam-se, talvez, ao soldado Bradley Manning, um técnico de informática, suposto agente original dos vazamentos. Não se aplicam ao veículo que decidiu publicá-los. A democracia é assim: na sua fragilidade aparente encontra-se a fonte de sua força.
O governo Obama estará traindo a democracia se sucumbir à tentação de perseguir Assange por meios ilegais. O WikiLeaks foi abandonado pelos parceiros que asseguravam suas operações na internet. Amazon, Visa, PayPal, Mastercard e American Express tomaram decisões empresariais legítimas ou cederam a pressões de Washington? A promotoria sueca solicita a extradição de Assange para responder a acusações de crimes sexuais. O sistema judiciário da Suécia age segundo as leis do país ou se rebaixa à condição de sucursal da vontade de Washington? Certo número de antiamericanos incorrigíveis asseguram que, nos dois casos, a segunda hipótese é verdadeira. Como de costume, eles não têm indícios materiais para sustentar a acusação. Se estiverem certos, um escândalo devastador, de largas implicações, deixará na sombra toda a coleção de insignificantes revelações do WikiLeaks.
A bandeira da liberdade nunca é desmoralizada pelos que a desprezam, mas apenas pelos que juraram respeitá-la. Assange não representa a liberdade de imprensa ou de expressão, mas unicamente uma heresia anárquica da pós-modernidade. Contudo, nenhuma democracia tem o direito de violar a lei para destruir tal heresia. A mesma ferramenta que hoje calaria uma figura sem princípios servirá, amanhã, para suprimir a liberdade de expor novos Guantánamos e Abu Ghraibs.
"Vamos fazer manifestação, porque liberdade de imprensa não tem meia cara, liberdade de imprensa é total e absoluta." Lula não teve essa ideia quando Hugo Chávez fechou a RCTV, nem quando os Castro negaram visto de viagem à blogueira Yoani Sánchez que lançaria seu livro no Brasil. Não a teve quando José Sarney usou suas conexões privilegiadas no Judiciário para intimidar Alcinéa Cavalcante, uma blogueira do Amapá, ou para obter uma ordem de censura contra O Estado de S. Paulo. Ele quase não disfarça o desejo de presenciar uma ofensiva ilegal dos EUA contra o WikiLeaks. Sob o seu ponto de vista, isso provaria que todos são iguais - e que os inimigos da liberdade de imprensa estão certos.
Alguém notou um sorriso furtivo, o tom de escárnio com que o presidente pronunciou as palavras "total e absoluta"?
SOCIÓLOGO E DOUTOR EM GEOGRAFIA HUMANA PELA USP. E-MAIL: DEMETRIO.MAGNOLI@TERRA.COM.BR

(grifos em vermelho são destaques deste blog)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

WIKILEAKS, A AL QAEDA CIBERNÉTICA E A LIBERTAÇÃO DE ASSANGE

A notícia de que Julian Assange, do site Wikileaks, que permitiu o vazamento de milhares de documentos secretos da diplomacia americana conseguiu liberdade provisória na Inglaterra, onde estava preso por acusação de crimes sexuais que teriam sido praticados na Suécia, repercute abaixo do Equador como se fosse uma vitória contra o imperialismo do Tio Sam.

Há gente tão contente com isso quanto ficou no dia em que a Al Qaeda derrubou as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque, matando milhares de pessoas. 

Assange é apenas um terrorista cibernético antiamericano, como é moda nestes tempos em que pensar já faz mal a milhões de pessoas.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

WIKILEAKS OR SEXLEAKS?

May be Assange do not control their own leaks...
Talvez Assange não controle seus próprios vazamentos...

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

WIKILEAKS, HONDURAS E ZELAYA

Muita gente ligada ao governo federal, ou por ocuparem cargos em diversos escalões, ou por serem representantes dos interesses do governo na imprensa, está alegre com informações de bastidores do governo americano vazadas pelo site Wikileaks, sobre Honduras.
O próprio ministro Celso Amorim diz que ficou contente porque agora teria ficado claro que houve golpe em Honduras contra Manuel Zelaya. A confirmação seriam as comunicações do embaixador americano a Washington à ocasião da queda daquele presidente. 
Não houve golpe em Honduras que tenha sido dado por militares ou pelo senhor Micheletti (à altura presidente do Congresso). Zelaya caiu porque se auto-impediu, basta ler atentamente a constituição de Honduras. Isso foi amplamente explicado no Brasil inclusive pelo site Consultor Jurídico, pelo advogado e jurista petista Dalmo Dallari (artigo publicado em 30/09/2009, O Fundamento Legal Omitido) ) e pelo jornalista Reinaldo Azevedo.  

Se os interessados forem pesquisar, como eu mesmo o fiz, semana após semana, durante meses, inclusive na imprensa de língua espanhola, que costuma ser muito melhor que a brasileira nos assuntos políticos, por estar muito menos infiltrada por verdadeiros militantes partidários que não honram mais a profissão de jornalista, confundindo jornalismo com propaganda ideológica, encontrarão um relato muito mais próximo da verdade de Honduras do que nos querem vender os militantes da esquerda no Brasil. 

Manuel Zelaya, do partido liberal, grande empresário rural, foi muito bem eleito pelos hondurenhos, ele era mesmo popular.
Ocorre que Honduras, como tantos outros países vizinhos, tem imensos problemas sociais e financeiros. Zelaya, ao longo do tempo, foi atraído para a área de influência de Chávez, seduzido pelas promessas de apoio financeiro e, principalmente, petróleo barato. Isso ainda continua a acontecer, basta ler a entrevista recente do presidente do Uruguai à veja em que agradece Chávez pelo petróleo barato,a perder de vista.
Chávez fez isso para fimar a ideia da América Bolivariana, uma cretinice que diz ter sido inspirada em Bolivar. Sempre insuflado por Fidel Castro e pela diplomacia brasileira.

Lentamente Zelaya foi permitindo um clima de insurgência no país (lembram-se do tempos de Jango Goulart?), abrindo espaço para os chamados movimentos populares e da sociedade civil, que não passam, quase sempre, de braços de partidos políticos de esquerda na A. Latina. O que Zelaya fez foi estimular a realização de uma constituínte e alterar a constituição, de modo a poder permanecer indefinidamente, como Chávez.   

Honduras é um país que, igual a outros na região, sofreu com inúmeras ditaduras e golpistas. Assim, de forma preventiva (nada a ver com Zelaya), no governo anterior a ele foi aprovada uma constituição à prova de golpe.
Constituição proíbe extensão de mandato.

O artigo 239 é claro ao expressar que qualquer governante que estimular a mudança da constituição para permanecer no poder estará automaticamente destituído. Zelaya agiu contra o Congresso e contra o Poder Judiciário que o haviam alertado que não poderia fazer a constituínte. Insistiu, com o apoio de Chávez, que enviou a Honduras todas as urnas para a operação, numa intromissão clara em outro país.
O exército hondurenho recebeu ordens dos demais poderes para prender Zelaya por traição à Constituição. Até aí está tudo perfeito e dentro da ordem. NÃO HÁ GOLPE NENHUM.

O erro dos militares, aí sim erraram feio, na minha opinião, foi que, ao invés de prendê-lo e processá-lo, em Honduras, como seria de se esperar, o puseram num avião e o enviaram ao exterior, desterrado. Aí feriram a constituição que não permite isso em Honduras. Posteriormente os militares reconheceram que erraram e disseram que temiam um levante estimulado pela esquerda, o que poderia provocar o derramamento de sangue. E, mesmo com a expulsão de Zelaya isso aconteceu nas semanas seguintes.

Imediatamente após chegar à Costa Rica começou o coro internacional contra o GOLPE. Chávez, Lula, Fidel, Ortega, Morales, todos os amigos de Zelaya e membros do Foro de São Paulo começaram a falar em golpe e isolaram Honduras. O resto é conhecido. Em outra ocasião voltarei com os desdobramentos do assunto do Foro de São Paulo, tema quase proibido na imprensa brasileira.

O embaixador americano em Honduras, que fez os relatos falando sobre golpe, era simpático a Zelaya e como tantos outros americanos, isso já é clássico na diplomacia americana, inepto para entender, de imediato as pretensões de Manuel Zelaya. Ou as compreendeu e as apoiava. 

Muitos questionam, por que o vice não assumiu? O vice era um dos inúmeros candidatos à eleição, estando afastado. Teve que assumir o senhor Micheletti, então presidente do Congresso, que governou até o fim do período de Zelaya e realizou as eleições que, inclusive, já estavam convocadas e em andamento. Micheletti nunca foi golpista. Feitas as eleições, foi eleito Lobo, que assumiu e governa o país, apesar da choradeira dos amiguinhos de Zelaya.

Golpe não houve. O verdadeiro golpista contra Honduras era o senhor Manuel Zelaya, que pretendia alterar a constituição, permanecer no poder indefinidamente e integrar o império bolivariano, que é o que se depreende dos relatdos da imprensa hondurenhas sobre os atos de seu governo.
Como bolivarianos são os nossos governantes, o Brasil emprestou a embaixada brasileira, em Tegucigalpa, para a pantomima da invasão por Zelaya, colocando verdadeiramente em risco a ordem pública naquele país.

Honduras quase teve uma guerra civil, que teria sido estimulada, de forma irresponsável, pelas nossas omissões ou concordância. Tudo fluiu num clima ambíguo de neblina. Pois na neblina legalidade é golpe, e golpe legalidade. 
  

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

WIKILEAKS NA VISÃO DE YARA CHIARA

Yara Chiara é uma leitora e comentarista eventual do blog de Reinaldo Azevedo, de quem faço questão de ler atentamente os textos, pois é sempre lúcida, correta e oportuna.
Sobre a discussão relativa às ações do Wikileaks, de Assange, que vaza informações confidenciais, especialmente do governo americano, Chiara faz ponderações muito interessantes sobre a histeria de Hillary Clinton.   

Diz Chiara:  

"A relevância estratégica é quase nula, no que tange aos documentos vazados até agora, mas existe relevância eleitoral: o fato é que Hillary Clinton aparece muito mal nos vazamentos. Primeiro, dá ordens possivelmente ilegais a oficiais atuando no exterior; se, em vez de exercerem suas funções típicas, eles seguem a Secretária de Estado e passam a fazer trabalho de inteligência, acabou a garantia do sigilo: o sigilo os resguarda até o ponto em que estejam atuando dentro da legalidade, até para evitar constrangimentos pessoais.
Não bastassem as ordens suspeitas, Hillary Clinton reagiu aos vazamentos de forma tão histérica e destrambelhada que deixou a população americana, e o mundo!, inseguros quanto à verdadeira política externa americana, transformando Asssange, nesse processo, num herói. Ela, à cabeça do Estado todo-poderoso, contra ele, um maverick, o tipo de figura adorada nos Estados Unidos.
Ela está nervosa. Ela está nervosa porque sabe, primeiro, que se queimou, e que, segundo, os republicanos não a perdoarão de forma alguma nas eleições vindouras.
Ao sigilo que encobre atividades de legalidade e eticidade suspeitas nem Hillary, que é secretária de Estado, nem os embaixadores têm direito."
(extraído do Blog de Reinaldo Azevedo. 02/10/2010)

Acho que Assange não passa de um terrorista que usa a Internet, mas que gosto do fato de que ele deixa Hillary nervosa, isso gosto mesmo.
Facilitará, talvez, para os conservadores. 
Isso me contenta.  

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

CENSURA AO WIKILEAKS? WIKILEAKS TO CENSORSHIPS?

Enquanto a discussão sobre as ações do Wikileaks gera resultados no mundo todo, fico com a frase, um convite à reflexão, do Reinaldo Azevedo:

"Deixo uma pergunta para vocês irem pensando aí: o sigilo é algo que só interessa ao governo, na contramão dos interesses dos cidadãos? Seriam os EUA uma tirania, que se exerce contra a vontade popular?"