Desde que o Iluminismo, aos trancos e barrancos, ocupou
espaço no nosso cotidiano e no imaginário das pessoas, afastando, inclusive, de
certa forma, a noção de destino, fatalidade, ou a vontade de Deus, há a ilusão
do predomínio da ciência sobre todas as outras formas de conhecimento.
Claro, usar produtos da ciência e da tecnologia pode facilitar
a nossa vida; o que me assusta é como a ciência passou a uma posição central.
Médicos
lhe disseram que ela tinha 87% de chance de desenvolver câncer de mama e ovário.
Por que Deus não a teria deixado ficar entre os 13% sortudos?
As pessoas hoje malham, vão à academia, tomam vitaminas,
deixam de fumar, não comem açucar e sal. Ainda não soube de qualquer caso de
imortalidade.
Não sou contra cuidar da saúde, mas há a ilusão do afastamento da
morte por meio de medidas profiláticas, digamos assim, que criam fantasia de uma
couraça contra a morte.
Pura bobagem. Morreremos um dia.
Claro, a média de vida
aumentou no Século XX, em muitos países, mas o alongamento da vida mostra surpresas: doenças que não eram
notadas surgem em crescente volume, como o Mal de Alzheimer.
De qualquer modo, nada tenho com as decisões particulares de
Angelina Jolie ou qualquer outra pessoa.
Apenas acredito que há um espírito de época
em que as pessoas julgam-se protegidas por estatísticas, tecnologias e ciência.
Mera ilusão.
E há imensas contradições, pois pessoas que criticam
fumantes de tabaco usam maconha e defendem a liberação de outras drogas.
Fortões
de araque, que frequentam academias, morrem do coração e de problemas no fígado por conta de
anabolizantes. É o mundo das aparências superficiais. Vale parecer saudável,
vale parecer forte, vale parecer feliz.
O grande sociólogo Norbert Elias trata da questão da Morte
em um belo pequeno livro: “A Solidão dos Moribundos”, em que analisa o medo atual
de contato com idosos terminais, o incômodo da doença, e o transtorno dos
funerais.
O ser humano, hipnotizado pelas promessas da ciência e
seduzido pela ideia da imortalidade mostra-se cada vez mais fraco e medroso.
Não à toa, o filósofo Olavo de Carvalho escreve em seu livro
“A Filosofia e seu Inverso”, à página 190, “O apego à autoridade da “ciência”, tal como hoje se vê na maior parte dos
debates públicos, não é senão a busca de uma proteção fetichista, socialmente
aprovada, contra as responsabilidades do uso da razão”.
O Iluminismo pretendeu matar Deus, os cientistas e a
crendice do povo; pretende-se ver a Ciência como um novo... Deus.
O que poderia decidir alguém, talvez Jolie, se um exame médico lhe
mostrasse a possibilidade de 87% de ter câncer no cérebro?
DA IMPRENSA
A atriz Angelina Jolie, 37 anos, escreveu artigo no jornal
The New York Times desta terça-feira, informando que realizou uma dupla
mastectomia preventiva - cirurgia de retirada dos seios -. Isso, após descobrir
que possui o gene "falho" BRCA1, o que aumenta bastante o risco de
desenvolver câncer de mama e ovário.
No artigo “My medical
Choice” (Minha escolha médica) ela afirma que, por conta da mutação no gene,
seus médicos estimaram em 87% o risco de câncer de mama, e 50% de câncer no
ovário.
“Quando descobri que
essa era minha realidade, eu decidi ser proativa e minimizar o risco o máximo
possível. Eu decidi fazer uma dupla mastectomia preventiva. Eu comecei com os
seios, uma vez que meu risco de câncer de mama é maior que o de ovário, e é uma
cirurgia mais complexa”, escreveu.
No dia 27 de abril terminou o período de três meses de
procedimentos médicos envolvidos com a mastectomia - durante o período, Jolie
disse que conseguiu manter sua vida pessoal e profissional. A sua mãe, Marcheline
Bertrand, moreu em 2007, aos 56 anos, após dez anos de luta com um câncer de
mama.
Angelina Jolie diz no artigo que está escrevendo sobre o
procedimento na esperança que outras mulheres possam se beneficiar de sua
experiência: “câncer ainda é uma palavra que provoca medo no coração das
pessoas, produzindo um profundo senso de impotência. Mas hoje é possível
descobrir por meio de um teste de sangue se você é altamente suscetível ao
câncer de mama e ovário, e então agir”.
Segundo o artigo, tomar a decisão de fazer a mastectomia não
é fácil, mas ela está feliz por ter feito – suas chances de desenvolver câncer
de mama caíram de 87% para menos de 5%. “Eu posso dizer aos meus filhos que
eles não precisam ter medo de me perder por causa do câncer de mama”, escreveu.
Jolie explica que seu procedimento começou em 2 de
fevereiro, com uma intervenção que exclui doenças nos dutos mamários, atrás dos
mamilos, e atrai um fluxo maior de sangue para a região.
Duas semanas depois teve início a cirurgia principal, que é
a remoção do tecido do seio, com o preenchimento temporário da mama. Passadas
nove semanas, a operação foi completada com a reconstrução dos seios com um
implante. “Houve muitos avanços neste procedimento nos últimos anos, e os
resultados podem ser lindos”, afirmou a atriz.
(Com informações publicadas na imprensa)
IMAGEM DE ANGELINA JOLIE DE: