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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

MILITARES, BANQUEIROS, PREGADORES

Mais uma grande lição do filósofo Olavo de Carvalho.

Os donos do mundo
Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 21 de fevereiro de 2011

As forças históricas que hoje disputam o poder no mundo articulam-se em três projetos de dominação global: o “russo-chinês” (ou “eurasiano”), o “ocidental” (às vezes chamado erroneamente “anglo-americano”) e o “islâmico”.

Cada um tem uma história bem documentada, mostrando suas origens remotas, as transformações que sofreu ao longo do tempo e o estado atual da sua implementação.
Os agentes que os personificam são respectivamente:
1. A elite governante da Rússia e da China, especialmente os serviços secretos desses dois países.
2. A elite financeira ocidental, tal como representada especialmente no Clube Bilderberg, no Council of Foreign Relations e na Comissão Trilateral.
3. A Fraternidade Muçulmana, as lideranças religiosas de vários países islâmicos e alguns governos de países muçulmanos.

Desses três agentes, só o primeiro pode ser concebido em termos estritamente geopolíticos, já que seus planos e ações correspondem a interesses nacionais e regionais bem definidos. O segundo, que está mais avançado na consecução de seus planos de governo mundial, coloca-se explicitamente acima de quaisquer interesses nacionais, inclusive os dos países onde se originou e que lhe servem de base de operações. No terceiro, eventuais conflitos de interesses entre os governos nacionais e o objetivo maior do Califado Universal acabam sempre resolvidos em favor deste último, que que hoje é o grande fator de unificação ideológica do mundo islâmico.

As concepções de poder global que esses três agentes se esforçam para realizar são muito diferentes entre si porque brotam de inspirações heterogêneas e às vezes incompatíveis.
Embora em princípio as relações entre eles sejam de competição e disputa, às vezes até militar, existem imensas zonas de fusão e colaboração, ainda que móveis e cambiantes. Este fenômeno desorienta os observadores, produzindo toda sorte de interpretações deslocadas e fantasiosas, algumas sob a forma de “teorias da conspiração”, outras como contestações soi disant“realistas” e “científicas” dessas teorias.

Boa parte da nebulosidade do quadro mundial é produzida por um fator mais ou menos constante: cada um dos três agentes tende a interpretar nos seus próprios termos os planos e ações dos outros dois, em parte para fins de propaganda, em parte por genuína incompreensão.

As análises estratégicas de parte a parte refletem, cada uma, o viés ideológico que lhe é próprio. Ainda que tentando levar em conta a totalidade dos fatores disponíveis, o esquema russo-chinês privilegia o ponto de vista geopolítico e militar, o ocidental o ponto de vista econômico, o islâmico a disputa de religiões.

Essa diferença reflete, por sua vez, a composição sociológica das classes dominantes nas áreas geográficas respectivas:
1) Oriunda da Nomenklatura comunista, a classe dominante russo-chinesa compõe-se essencialmente de burocratas, agentes dos serviços de inteligência e oficiais militares.
2) O predomínio dos financistas e banqueiros internacionais noestablishment ocidental é demasiado conhecido para que seja necessário insistir sobre isso.
3) Nos vários países do complexo islâmico, a autoridade do governante depende substancialmente da aprovação da umma – a comunidade multitudinária dos intérpretes categorizados da religião tradicional. Embora haja ali uma grande variedade de situações internas, não é exagerado descrever como “teocrática” a estrutura do poder dominante.

Assim, pela primeira vez na história do mundo, as três modalidades essenciais do poder – político-militar, econômico e religioso – encontram-se personificadas em blocos supranacionais distintos, cada qual com seus planos de dominação mundial e seus modos de ação peculiares. Isso não quer dizer que cada um não atue em todos os fronts, mas apenas que suas respectivas visões históricas e estratégicas são delimitadas, em última instância, pela modalidade de poder que representam. Não é exagero dizer que o mundo de hoje é objeto de uma disputa entre militares, banqueiros e pregadores.

Praticamente todas as análises de política internacional hoje disponíveis na mídia do Brasil ou de qualquer outro país refletem a subserviência dos “formadores de opinião” a uma das três correntes em disputa, e portanto o desconhecimento sistemático de suas áreas de cumplicidade e ajuda mútua.

Esses indivíduos julgam fatos e “tomam posições” com base nos valores abstratos que lhes são caros, sem nem mesmo perguntar se suas palavras, na somatória geral dos fatores em jogo no mundo, não acabarão concorrendo para a glória de tudo quanto odeiam. Os estrategistas dos três grandes projetos mundiais estão bem alertados disso, e incluem os comentaristas políticos – jornalísticos ou acadêmicos – entre os mais preciosos idiotas úteis a seu serviço.
FONTE: http://www.olavodecarvalho.org/semana/110221dc.html

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O MUSEU COMUNISTA DE ERIC HOBSBAWM. Ou: os delírios de Lula contaminaram o historiador inglês.

Está repercutindo bastante, nos blogs e sites da esquerda a entrevista em que o historiador marxista inglês, Eric Hobsbawm, afirma que Lula foi o verdadeiro criador da democracia no Brasil.

Pelo visto, a fase do Collor e do Fernando Henrique Cardoso não foi para valer.

Hobsbawm, que completará 92 anos em junho,  disse ao The Guardian (reproduzido pela Folha S Paulo) que a América Latina é onde ele se sente melhor, porque na região sente que estão valendo as idéias do final do Século XIX.

Será que com isso ele não está pretendendo esquecer o Século XX, tão cruel com o comunismo? Ou melhor, em que o comunismo mostrou-se tão cruel com os indivíduos, em nome da Humanidade recriada?

- Sigo na esquerda, sem dúvida com mais interesse em Marx do que em Lênin. Porque sejamos sinceros, o socialismo soviético fracassou. Foi uma forma extrema de aplicar a lógica do socialismo, assimo como o fundamentalismo de mercado foi uma forma extrema de aplicação da lógica do liberalismo econômico. E também fracassou. A crise global que começou no ano passado é, para a economia de mercado, equivalente ao que foi a queda do Muro de Berlim em 1989. Por isso Marx segue me interessando. Como o capitalismo segue existindo, a análise marxista ainda é uma boa ferramenta para analisá-lo. Ao mesmo tempo, está claro que não só não é possível como não é desejável uma economia socialista sem mercado nem uma economia em geral sem Estado.

De fato, Hobsbawm, aclamado pela esquerda como maior historiador do mundo (na verdade, pode ser o maior marxista historiador) ainda acha que tudo o que o comunismo fez foi culpa de Lênin. Então, afirma-se marxista. Como todo bom marxista justifica o mal e diz que da próxima vez tudo será diferente.

Haja!

Hobsbawm por Geoffrey Levy (extracted from Daily Mail, march 2009)

As the dead were being mourned and flowers brought to the fresh graves of the hundreds of brave Hungarians shot and, in some cases, hanged, and as Russian tanks patrolled the dishevelled streets, this 'distinguished' historian was writing in the Communist Daily Worker: 'Whilst approving, with a heavy heart, of what is now happening in Hungary, we should also say frankly that we think the USSR should withdraw its troops from the country as soon as possible.'
His view had not changed by the time, a dozen years later, some 27 divisions, 6,300 tanks and 400,000 troops stormed into Czechoslovakia in 1968 to stamp out moves for political reform.
Years later, in 1997, Hobsbawm set down his warped view of these events in his book On History. With a level of obfuscation that, surely, assumed his readers (in 40 languages) were intellectually challenged, he wrote: 'Fragile as the communist systems turned out to be, only a limited, even minimal use of armed coercion was necessary to maintain them from 1957 until 1989.' The year 1989, of course, was when the Berlin Wall came down.

Gulags
Millions died in the gulags but Hobsbawm tries to justify the sacrifice
But for any historian, least of all one who is regularly deferred to in the pages of The Guardian newspaper quite apart from the BBC, this was mind-boggling stuff.
Just how 'minimal' were Stalin's massacres, the Soviet prison camps and secret police, its systematic intimidation and torture, its suppression of free speech, its crushing of freedom in Hungary and Czechoslovakia?
For Eric Hobsbawm, all of this was a case of 'doing what had to be done' and despite everything, he still has an almost sentimental view of the fall of communism as 'an unbelievable social and economic tragedy'.
As for his lingering nostalgia for communism, and unremitting disgust at capitalism, he blames this on spending part of his upbringing in Germany. He was born into a Jewish family in 1917 - 'the year of the shining light of October' as he puts it, when local Soviets were 'springing up spontaneously everywhere like mushrooms after the rains'.

Read more: http://www.dailymail.co.uk/debate/article-1158691/GEOFFREY-LEVY-Eric-Hobsbawm-useful-idiot-chattering-classes.html#ixzz1C5ETDY7b

O BRASIL ANTE O SENTIDO DA VIDA. Um texto de 1999 para 2011.

Texto integral do filósofo Olavo de Carvalho, extraído do site  http://www.olavodecarvalho.org/

Espírito e cultura: o Brasil ante o sentido da vida
Primeira Meditação de Ano Novo

Por vezes, do fundo obscuro da alma humana, soterrada de paixões e terrores, nasce um impulso de libertar-se da densa confusão dos tempos e erguer-se até um ponto onde seja possível enxergar, por cima do caos e das tormentas, dos prazeres e das dores, um pouco da harmonia cósmica ou mesmo, para além dela, um fragmento de luz da secreta ordem trancendente que — talvez — governa todas as coisas.

É o impulso mais alto e mais nobre da alma humana. É dele que nascem todas as descobertas da sabedoria e das ciências, a possibilidade mesma da vida organizada em sociedade, a ordem, as leis, a religião, a moralidade, e mesmo, por refração, as criações da arte e da técnica que tornam a existência terrestre menos sofrida.

Nenhum outro desejo humano, por mais legítimo, pode disputar-lhe a primazia, pois é dele que todos adquirem a quota de nobreza que possam ter, residindo mesmo aí o critério último da diferença entre o humano e o sub-humano (ou anti-humano) e, por conseguinte, para além de toda controvérsia vã, a chave da distinção entre o bem e o mal. É bom o que nos eleva à consciência da ordem e do sentido supremos, é mau o que dela nos afasta. Não tem outro significado o Primeiro Mandamento: Ama a Deus sobre todas as coisas.

Acontece que a esse impulso fundamental corresponde um outro, derivado mas não menos forte: aquele que leva o homem que entreviu a ordem e o sentido a desejar repartir com os outros homens um pouco daquilo que viu. Não há certamente maior benefício que se possa fazer a um semelhante: mostrar-lhe o caminho do espírito e da liberdade, pelo qual ele pode se elevar a uma condição que, dizia o salmista, é apenas um pouco inferior à dos anjos. Tal é, substancialmente, a forma concreta do amor ao próximo: dar ao outro o melhor e o mais alto do que um homem obteve para si mesmo. Amamos o nosso próximo na medida em que o elevamos à altura dos anjos. Fazemos-lhe o mal quando o rebaixamos à condição de bichinho, seja com maus tratos, seja com afagos.

Nessas duas exigências está contida, dizia Cristo, toda a lei e os profetas.
Para grande escândalo do relativismo pedante que desejaria nos convencer da geral discórdia entre os valores culturalmente admitidos nas várias sociedades, a universalidade desse duplo mandamento é um dos dados mais evidentes da história mundial. Não há com efeito civilização, por mais remota ou "bárbara", que não tenha valorizado, acima de todas as outras virtudes e motivações humanas, o impulso para o conhecimento e o ensino da "única coisa necessária". O prestígio universal do sacerdócio — no sentido amplo que Julien Benda dava à palavra clerc, que inclui a presente classe dos "intelectuais" — é o mais patente sinal de que, por trás de toda a confusão aparente das línguas, a humanidade unânime tem plena consciência de uma hierarquia de valores que, se fosse questionada, suprimiria no ato a possibilidade mesma do questionamento, já que não se pode questionar um saber exceto em vista de um saber mais alto.
***
A observações gerais, suficientemente óbvias para só terem de ser lembradas explicitamente em situações de desorientação e confusão incomuns, eu desejaria aqui dar alguns desenvolvimentos mais particularizados e mais ligados à existência histórica, concernente, de um lado, à cultura e à civilização — consideradas ainda em escala geral —, de outro à presente e catastrófica situação da cultura brasileira.
Com relação ao primeiro ponto:

1. Embora o impulso ascensional a que me referi seja sempre e universalmente o mesmo, o movimento de doação e repartição que se lhe segue tem de tomar, por força, a forma dos canais de comunicação existentes numa sociedade historicamente dada: língua, símbolos, valores, etc. Daí que se possa sempre observar, no estudo das manifestações superiores da espiritualidade, esse duplo direcionamento, que de um lado atesta a convergência dos caminhos percorridos pelos homens espirituais de todo o mundo ("tudo o que sobe converge", dizia Teilhard de Chardin), de outro a pluralidade inesgotável das formas assumidas pelos testemunhos incorporados ao legado cultural: textos, obras de arte, leis, etc. (1)

2. Todo fenômeno de ascensão interior, sem exceção, começa sempre com um indivíduo isolado — e que, no curso da sua caminhada, é levado a isolar-se ainda mais da comunidade em busca da necessária condição de concentração espiritual —, e se completa com a irradiação de parte dos conhecimentos obtidos, de início numa discreta roda de companheiros ou discípulos investidos da mesma disposição para o isolamento e a concentração, em seguida em círculos cada vez maiores, até abranger comunidades, sociedades e civilizações inteiras. (2)

3. No processo de irradiação, intervêm a memória e o registro. De início transmitidos oralmente e sustentados pela presença e pelo exemplo do mestre, os ensinamentos não tardam a registrar-se, não raro sob a forma compacta de sentenças lacônicas ou de narrativas alusivas e simbólicas — ou grafismos, ou melodias — que constituirão o núcleo irradiante em torno do qual se formará, com o tempo, a cultura. Esta pode abranger desde simples repetições imitativas das formas originárias até uma infinidade de desenvolvimentos intelectualmente relevantes. Qualquer que seja o caso, é uma fatalidade da constituição humana que a reprodução das condições internas e psicológicas do aprendizado, que depende exclusivamente da livre iniciativa dos futuros aprendizes e só pode ser estimulada mas não determinada pela cultura, não acompanhe jamais a velocidade da proliferação das criações culturais que refletem o núcleo inspirador inicial de maneiras cada vez mais distantes, apagadas, indiretas e finalmente invertidas. O que começou como uma intuição direta da ordem suprema termina como debate entre ignorantes e cegos esmagados sob toneladas de registros materiais tornados incompreensíveis.

4. Esses três momentos refletem, no microcosmo da história humana, os três gunas ou "movimentos básicos do cosmos" de que fala a doutrina hindu: sattwa ou movimento ascensional, rajas ou movimento expansivo, e tamas, ou movimento descendente, degradante e "entrópico". Rajas nasce de sattwa assim como o Segundo Mandamento decorre do Primeiro. O terceiro momento nasce do segundo, quando se torna autônomo e perde sua raiz no primeiro: quando o amor do ser humano ao ser humano já não visa a elevá-lo acima de si mesmo, mas se limita a desejá-lo e agradá-lo, o amor se degrada em lisonja, a lisonja em manipulação e a manipulação em ódio. No fim já não é possível distinguir uma coisa da outra e o ponto mais fundo do engano se atinge quando o grosseiro e o brutal, a revolta e o fanatismo passam a ser aceitos socialmente como manifestações do "autêntico", quando são apenas o resultado de uma longa sedimentação de erros e um condensado de todas as idolatrias passadas. Na esfera intelectual, a mesma coisa: quando o ensino e a cultura já não transmitem a inspiração originária mas põem em seu lugar o culto idolátrico das formas acumuladas historicamente (o que pode tomar a forma do dogmatismo seco, ou do estetismo, ou do formalismo social, etc.), ainda resta a possibilidade de uma reconquista do sentido interior, mas a proliferação mesma das criações culturais, ilusoriamente tomada como riqueza, torna isso cada vez mais difícil, e por fim a acumulação de pontos cegos se condensa num aglomerado de erros fundamentais — uma "revelação satânica" — que, justamente por seu caráter compacto, obscuro, brutal e impressionante, é tomado ilusoriamente como uma descoberta libertadora. Que um "filósofo" tenha chegado a explicar a história pela organização econômica, como se a organização econômica surgisse do nada, como se ela pudesse brotar diretamente do substrato animal do homem, como se ela não fosse reflexo e subproduto da elevação do homem em direção à percepção da ordem cósmica — eis um curioso e trágico exemplo dessa inversão onde a densidade mesma das trevas é tomada como uma espécie de fulgor. (3)

5. Um dos traços marcantes do período entrópico é que a própria administração de uma vasta e crescente coleção de registros culturais requer a formação de uma classe de letrados para a qual esse legado, considerado em si mesmo e independentemente de qualquer referência às suas fontes inspiracionais, se torna objeto de estudo e devoção. Técnicas especiais são criadas para esse fim — a bibliografia e a bibliologia, a filologia, a crítica histórica dos documentos, a análise estrutural — e essas técnicas por sua vez se acumulam até o ponto de constituir um universo cultural de direito próprio. Algumas delas podem visar à simples conservação ou reconstituição dos documentos, outras à sua "interpretação" em função das épocas e ideologias, outras a elucidar sua estrutura interna, etc. Todas são alheias ao problema central: assegurar que o examinador tenha a condição interior de elevar-se à experiência originária da qual o documento é registro. Essa condição é dada por pressuposta ou deixada à casualidade do maior ou menor talento pessoal. Ela está completamente fora do processo investigativo e educativo, que assim tem o seu foco inteiramente voltado, seja para os registros em si, seja para suas circunstâncias, para o que lhes está em torno. Mostrar habilidade no domínio dessas torna-se o critério essencial de seleção e avaliação na vida intelectual, e o decorrente desvio das discussões para uma infinidade de aspectos menores e irrelevantes produz a criação de novas e novas técnicas, tornando a vida intelectual uma insensata demonstração de força e, no fim, produzindo por inevitável reação o surgimento de técnicas para destruir as técnicas e para provar a absoluta inocuidade dos documentos.
***
Com relação ao segundo ponto, isto é, à situação atual da cultura brasileira, o que é preciso enfatizar é o seguinte:

1. Em quinhentos anos de existência, a cultura deste país não deu ao mundo um único registro de experiência cognitiva originária. Nossa contribuição ao conhecimento do sentido espiritual é, rigorosamente, nula. Não há nas correntes culturais do mundo um único símbolo, conceito, idéia ou palavra essencial à conhecimento, que tenha sido descoberta de um brasileiro. Toda a nossa "produção cultural" consiste apenas de prolongamentos e ecos de registros absorvidos de culturas estrangeiras. (4) Nesse sentido, nossa cultura é rigorosamente "periférica" em relação à história espiritual do mundo. Periférica, portanto, num sentido bem diverso ao que essa palavra tem no jargão do academismo esquerdista (Celso Furtado, Fernando Henrique Cardoso, etc.), onde centro e periferia são economicamente determinados e daí decorre uma teoria grotesca que identifica o centro espiritual do mundo ao centro do poder econômico — teoria ela mesma periférica, no sentido que dou ao termo.

2. Como entramos no curso da história num momento em que as culturas que nos serviam de fontes já se encontravam elas próprias num estado avançado de decomposição entrópica, perdendo cada vez mais de vista as intuições originárias e enrijecendo-se num formalismo do qual agora tentam desesperadamente sair mediante a decomposição geral das formas (como um homem que, cansado de tentar em vão compreender um livro passa a rasgá-lo na esperança de da sua decomposição física obter a sua quintessência), toda a história da nossa cultura é a do eco de um eco, da sombra de uma sombra. Todos sabemos disso e temos vergonha disso. Procuramos inutilmente aliviar essa má-consciência lançando as culpas no econômico (o que já é reflexo de uma ilusão, portanto duplamente periférico), ou então apegando-nos à quantidade e declarando que o volume de uma produção irrelevante e repetitiva é prova de nossa "criatividade".

3. Considerando-se os nossos cinco séculos de história, a extensão física e o volume populacional deste país, a nulidade da nossa contribuição espiritual chega a ser um fenômeno espantoso, sem paralelo na história do mundo. O desinteresse, a letargia espiritual da cultura brasileira, a prisão da inteligência nacional na esfera do econômico imediato, são sinais de uma pequenez de alma que jamais se observou em tão impressionante escala coletiva. Se existissem verdadeiros estudiosos acadêmicos entre nós esse tema seria motivo de preocupação e debates. Mas toda a nossa vida acadêmica é ela própria reflexo desse fenômeno, que escapa portanto ao seu horizonte de visão: nossas classes letradas não têm força sequer para tomar consciência da sua própria miséria espiritual.

4. Nem mesmo no domínio religioso, que é aquele onde a busca espiritual tem o seu suporte mais fácil e natural, registramos uma única experiência que atestasse algo como um contato direto, mesmo breve e fugaz, entre um brasileiro e o sentido da vida cósmica. Toda a nossa "religiosidade" é periférica e imitativa, resíduo da decomposição de cultos extintos ou cópia de pseudo-religiões inventadas na Europa ou nos Estados Unidos.

5. É exatamente por isso que toda ideologia nacionalista, entre nós, tem sido simplesmente reativa e oportunista, já que não pode se fundar em valores espirituais inexistentes. A pressa com que nosso povo copia hábitos e modos de falar estrangeiros, dando mesmo a seus filhos nomes ingleses ou franceses, mostra a profunda indiferença popular por uma cultura que nada tem a lhe dizer sobre o sentido da vida e que, no máximo, lhe fornece, na música popular, no futebol e no Carnaval, os meios e a ocasião de se anestesiar, por meio de ruídos sem sentido, contra o sem-sentido da vida. Nosso nacionalismo, por isto, não pode se compor de verdadeiro amor à pátria, exceto em estreitos círculos — por exemplo nas Forças Armadas ou em antigas famílias de altos servidores públicos — que têm sua história comunitária ligada às lutas pela formação política do Brasil e por isto amam sua criação. Pode também haver um certo amor à pátria na constatação direta de certas virtudes espontâneas da sociedade brasileira, mas esta constatação, em vez de ser reforçada no nível da cultura letrada é aí desmentida à força de sofismas de um artificialismo impressionante (produzidos, é verdade, a soldo das fundações Ford e Rockefeller, mas por pessoas que, por outro lado, sendo esquerdistas, se acreditam piamente nacionalistas e anti-americanas, o que já basta para atestar a leviana superficialidade de suas inteligências). Fora disso, o nacionalismo no Brasil se constitui apenas de ressentimento anti-americano — motivado antes pelas culpas recalcadas da classe letrada do que por queixas objetivas, embora estas existam — e não tem nenhum fundamento cultural autêntico.

6. Toda aspiração nacional de tornar-se "grande potência" com uma base cultural tão nula está condenada, de antemão, seja ao fracasso, seja a um sucesso que se tornará, caso alcançado, um flagelo para a humanidade, obrigada a curvar-se ante a força bruta de novos bárbaros que nem sequer têm um senso próprio de orientação na História onde interferem cegamente.

7. Todo patriotismo, aqui, é investimento num país imaginário e meramente possível, apenas toscamente prenunciado pelas virtudes populares espontâneas que mencionei, as quais aliás se dissolvem velozmente sob o impacto do discurso destrutivo que hoje é o Ersatz de moralidade entre as nossas classes letradas. Quem deseje contribuir para que esse país se torne realidade só tem um caminho a seguir: lutar para que a cultura brasileira se ligue às fontes centrais e permanentes do conhecimento espiritual, para que a experiência da visão espiritual ingresse no nosso horizonte de aspirações humanas e, uma vez obtida, faça explodir, com a força das intuições originárias, todo um mundo de formas imitativas e periféricas, gerando uma nova vida.
O resto é pura agitação sem finalidade.

OLAVO DE CARVALHO
31/12/99

NOTAS

  1. Sempre houve por isso uma tensão criadora entre a abordagem "interna" ou espiritual desses estudos e a sua abordagem "externa": cultural, histórica, sociológica, etc. Um exemplo do primeiro ponto de vista — um corte "estático" no panorama das espiritualidades mundiais, mostrando a substancial unidade das experiências interiores em todas as épocas e civilizações — é dado na monumental antologia de textos sagrados, espirituais e místicos organizada por Whitall N. Perry sob o título A Treasury of Traditional Wisdom (Pates Manor, Bedfont, Middlexex: Perennial Books, 1971, 2nd. Ed. 1981). A abordagem "externa" é também necessária, mas é realizada em geral por diletantes a quem o sentido "interno" escapa por completo — Mauss, Benedict, Mead, Lévy-Strauss, Sapir, para não falar nada da vulgata marxista —, e seu resultado é praticamente nulo. Mircea Eliade, no seu clássico Tratado de História das Religiões, parte de uma efetiva apreensão interior da unidade, mas, diante da variedade dos fenômenos que a manifestam, não consegue passar da primeira etapa do esforço de racionalização científica, que é a classificação. Bem mais longe vai Eric Voegelin em Order and History, 5 vols., Baton Rouge: Louisiana University Press, 1956-1981, gigantesco e bem sucedido esforço de articular, segundo um corpo organizado de conceitos e métodos, a unidade latente da percepção da ordem e a sucessão histórica de suas várias manifestações.
  2. Um breve exame da regularidade invariável com que esse fenômeno se repete ao longo das eras, bem como da constância com que em torno deles se articulam as grandes mutações históricas, basta para notar que o Primeiro e o Segundo Mandamentos não são apenas as banais receitas normativas e devocionais em que os converteu a estúpida pseudo-religiosidade contemporânea (vaticana inclusa), mas a clave reguladora do devir, os princípios fundamentais da ontologia do ser histórico.
  3. Imaginar que essa macabra inversão da realidade pudesse levar a outro resultado que não à criação do Estado mais homicida que já existiu é coisa de hipnotizados. O marxismo é a causa intelectual direta de tudo o que se passou no mundo comunista e todo marxista é cúmplice consciente ou inconsciente do genocídio soviético-chinês. — Aliás, já passei do tempo em que, tendo-me despedido do meu marxismo juvenil, ainda podia falar de Karl Marx com respeito. Quanto mais o conheço, mais o desprezo. Ele nunca foi filósofo, foi apenas um satanista deslumbrado, um mentiroso contumaz e um charlatão capaz das piores falsificações científicas, além de um racista capaz de se referir a negros e orientais como "lixo étnico", um burguês hipócrita capaz de proibir à mesa da família a presença do filho bastardo que tivera com a empregada, e, o que é pior de tudo, um espião a serviço do governo austríaco, delatando por baixo do pano os mesmos companheiros nos quais insuflava o ardor revolucionário com discursos impregnados de ódio. Se querem tirar a dúvida, leiam, além dos capítulos indispensáveis que lhe dedicaram Paul Johnson em Intelectuais e Edmund Wilson em Rumo à Estação Finlândia, o assombroso Marx and Satan, de Richard Wurmbrand. O pastor Wurmbrand, uma das figuras exponenciais da espiritualidade do século XX, judeu convertido ao protestantismo, foi preso e torturado pelos comunistas durante quatorze anos (as cicatrizes das torturas repetidas foram comprovadas por uma comissão da ONU) pelo crime de levar o conforto religioso aos prisioneiros.
  4. Creio que a obra de Mário Ferreira dos Santos contém mais de um registro de descoberta espiritual originária e que, por isto mesmo, quando a palavra "Brasil" tiver se apagado da memória do mundo, essa obra ainda viverá. Mas, por enquanto, não há lugar para ela numa cultura nacional que ainda não se elevou à altura de compreendê-la, e por isto seria injusto chamá-la de contribuição "brasileira". Um país não tem nenhum direito de se apropriar de méritos que não soube sequer reconhecer. Trata-se portanto de descoberta de um indivíduo, que por estar fora da sua cultura nacional nada deve a ela e, a rigor, vale mais do que ela inteira.