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segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

AS VÍTIMAS DO INCENDIO DA BOATE KISS, DE SANTA MARIA E O CHORO DA PRESIDENTE. Com a idade mais avançada Dilma Roussef começa a mostrar que tem coração sensível.



A tragédia que abalou Santa Maria, mais diretamente, e o Brasil inteiro, fez com que a presidente Dilma Rousseff passasse por lá, vinda de uma viagem ao Chile, para prestar solidariedade aos familiares que perderam parentes e aos feridos. No que fez muito bem.

Inicialmente seria uma visita discreta, de consolo, mas começaram a vazar fotos da presidente abraçando pessoas e chorando. 

Bem, choramos e ficamos emocionados com eventos assim, tão inesperados e brutais, longe, parece no caso da boate Kiss, de uma simples fatalidade.

Estou tão chocado e indignado com os fatos como qualquer outro cidadão; espero que a polícia faça o seu trabalho de forma correta e indicie os culpados, pois a fatalidade não pode ir para a cadeia. Pessoas, sim, por imperícia, imprudência, negligência.

Como esse caso foi uma das maiores tragédias do Brasil, certamente as autoridades terão todo o empenho em esclarecer a sequência dos fatos, desde antes do incêndio, isto é, desde a história do tal alvará vencido há meses, para checar se a boate Kiss cumpria, mesmo, todos os regulamentos e normas de segurança.  

Como o incendio ocorreu, mais pareceu trata-se de uma armadilha ou arapuca que contou, de certa forma, com uma ajudazinha da sorte, e a negligência de alguns.

Mas, voltando à presidente Dilma. Ela (certamente a sua assessoria) não vai deixar passar a oportunidade política de se manifestar sobre o caso, embora o drama o mereça, de olho no futuro.

O CHORO DE DILMA E O SEU PASSADO

Mas uma coisa chama sempre a minha atenção. Sou muito mais velho que a maioria dos leitores, com certeza, pois faço parte da geração de Dilma Rousseff. O que chama a minha atenção, e uma vez escrevi a propósito, foi que a presidente também se emocionou quando do massacre do Realengo, no Rio de Janeiro, em que um maluco matou a tiros muitas crianças.

Ela também se emocionou quando houve o problema dos desabamentos na serra do Rio de Janeiro, como muitas perdas de vida. E é bom ou ruim que a presidente se emocione diante de fatos assim tão tristes e dramáticos?

Acho bom, isso demonstra que ela tem uma alma sensível e que consegue captar o drama daquelas pessoas e se empatiza com elas. Uma pessoa humana, como diriam alguns... como se pessoas pudessem ser outra coisa. Mas agora dispara frases (coisa de sua assessoria) sobre quantos futuros presidentes o Brasil teria perdido no incêndio da boate Kiss! Tenha dó, com o devido respeito aos mortos, vamos parar com isso!

Mas trato do choro de Dilma como chamou a minha atenção a forma de Barack Obama manifestar a sua dor no caso de Sandy Hook, quando dezenas de crianças também foram mortas a tiros por outro atirador maluco.

Eu acredito que políticos consigam sentir emoções. Acredito que possam ser sinceros. Mas é preciso colocar as coisas em uma certa perspectiva. A foto de Obama com o dedo indicador no canto do olho não me convenceu totalmente. Há muito histrionismo em muitas das manifestações de quem tem mandato e depende de votos.

Bem, pode pensar o leitor, como você pode julgar a emoção de Dilma ou de Obama? De fato não estou julgando ninguém, apenas observando cenas e a história. Roland Barthes no livro “A Câmara Clara” fala sobre “punctum”, um ponto que chama a atenção em uma foto e que nos atrai, nos fascina.

No caso de Obama foi a forma como ele tocou o canto dos olhos com o dedo indicador, como a sugerir a existência de uma lágrima que não vi cair.


“PUNCTUM”

No caso de Dilma, bem, não se trata de “punctum” de alguma foto dela, mas de uma questão mais antiga, e que sempre me persegue: Como a presidente de todos os brasileiros consegue sentir tanta emoção diante da tragédia provocada por incêndios ou chuvas torrenciais e nunca falou uma única palavra de conforto, não importa que tenham passado tantas décadas, às famílias das vítimas do terrorismo nos anos 70?

Dilma, a presidente, talvez mais amadurecida, na casa dos 60 anos, com filha e neto, tenha aprendido a chorar, ou a externar o seu sentimento. 

Mas, porque ela nunca se referiu à dor das famílias das vítimas do terrorismo? Enquanto os que empunharam armas para lutar e derrubar a ditadura para implantar outra ditadura (estilo cubano, chinês) receberam indenizações, os familiares de suas vítimas nunca receberam um aceno qualquer.

Ela já disse –aceitemos de boa vontade a sua palavra – que nunca matou ninguém nos tempos do terrorismo (chamado eufemisticamente de luta armada). Embora ela nunca tenha apertado o gatilho, nem explodido bombas, ela já disse que participava em planejamento, logística de grupos clandestinos que praticavam atos terroristas violentos. Isso é da História do Brasil. Mas que diabos seria logística em eventos de natureza terrorista?

Percebem onde quero chegar? Sei que houve a Anistia geral  – e que os ex-terroristas teimam em querer apagar uma parte da história – mas a essa parte, a das vítimas do terror, ninguém se refere, mesmo para pedir desculpas quarenta anos depois. 

Está aí a Comissão da Verdade, que não me deixa mentir. Ninguém naquela comissão parece interessado em saber das vítimas deles (os terroristas), os que participaram da luta armada. Sim, muitos civis que nada tinham a ver com a luta morreram de forma horrível.

Aquelas famílias de mais de 100 brasileiros, mortos em atentados terroristas, a maioria vítimas inocentes, nunca recebeu um afago, creio, uma lembrança, um pedido de desculpas de nenhum dos ex-terroristas, alguns, hoje, altas autoridades da República.

Dilma Rousseff, uma senhora de mais de 60 anos, mãe e avó, presidente de todos os brasileiros, pode ter aprendido com a vida, amolecido o coração. Se enternece com os fatos recentes. Ainda hoje sua assessoria divulgou uma frase sobre a tragédia: "muitos deles poderiam ter sido futuros presidentes".

Mas teria se esquecido do passado? E quantos daqueles mortos poderiam, também ter sido presidentes? Quantos deixaram de ver os filhos, os irmãos, as irmãs, os pais?

Essas questões me perseguem, como o “punctum” das fotografias para Roland Barthes.

Acho que há um limite em que é necessário tocar o alarma do pudor.