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sábado, 9 de junho de 2012

LULA E O TUCANO NA PRESIDÊNCIA. Ou, "os deuses primeiro enlouquecem aqueles a quem querem destruir". (Fernando Gabeira)

O artigo de sábado no Estadão, de Fernando Gabeira, diz algumas verdades sobre Lula e a sua liberdade de dizer tudo o que lhe vem à cabeça. Uma parte são bravatas, ele é um grande bravateiro; uma parte, penso, e concordo com Luis Mir, autor de O Partido de Deus, que Lula imagina-se um ser especial, alguém de caráter messiânico, apoiado num partido que funciona como se fosse movido a um tipo de dogma religioso. 

O PT tudo pode, aos outros restam os restos e a conformação. Vejam se não é isso que parece justificar a eles, sem ironia, o Mensalão!

No fundo, claro que não é nada disso, pois trata-se de uma arrogância partidária, uma anestesia, ou um alucinógeno que os faz pensar ou crer que tudo podem porque serão os salvadores do Brasil, talvez da Humanidade. 

Gabeira, em meio às suas esquisitices, às vezes é bastante lúcido. Quanto a Lula, concordo com ele. E creio mesmo que os deuses sabem o que fazem.

Se um ex-presidente não sabe mais comportar-se como tal, não conhece o seu devido lugar, não respeita a Presidência, e se vive acreditando e dizendo que não consegue desencarnar do poder, só mosmo os deuses poderão encontrar a solução adequada.

  


Lula e nosso futuro comum
08 de junho de 2012


FERNANDO GABEIRA, jornalista
O Estado de S.Paulo

O ponto de partida é uma frase de Lula: "Não deixarei que um tucano assuma de novo a Presidência". Lembro, no entanto, que não sou de pegar no pé de Lula por suas frases. Cheguei a propor um "habeas língua" para o então presidente na sua fase mais punk, quando disse que a mãe nasceu analfabeta e que se a Terra fosse quadrada a poluição não circularia pelo mundo. Lembro também que hoje concordo com o filósofo americano Richard Rorty: não há nada de particular que os intelectuais saibam e todo mundo não saiba. Refiro-me à ilusão de conhecer as leis da História, deter segredos profundos sobre o que dinamiza seu curso e dominar em detalhes os cenários futuros da humanidade.

Nesse sentido, a eleição de Lula, um homem do povo, sem educação formal superior, não correspondeu a essa constatação moderna de Rorty. Isso porque, apesar de sua simplicidade, Lula encarnava a classe salvadora no sonho dos intelectuais, via luta de classes como dínamo da História humana, e traçava o mesmo futuro paradisíaco para o socialismo. Na verdade, Lula falava a linguagem dos intelectuais. Seus comentários que despertaram risos e ironias no passado eram defendidos pelos intelectuais com o argumento de que, apesar de pequenos enganos, Lula era rigorosamente fundamentado na questão essencial: o rumo da História humana.

A verdade é que a chegada do PT ao poder o consagrou como um partido social-democrata e, ironicamente, a social-democracia foi o mais poderoso instrumento do capitalismo para neutralizar os comunistas no movimento operário. São mudanças de rumo que não incomodam muito quando se chega ao poder. O capitalismo é substituído pelas elites e o proletariado salvador, pelos consumidores das classes C e D. Os sindicalistas vão ao paraíso de acordo com os critérios da cultura nacional, consagrados pela canção: É necessário uma viração pro Nestor,/ que está vivendo em grande dificuldade.

Se usarmos a fórmula tradicional para atenuar o discurso de Lula, diremos que o ex-presidente queria expressar, com sua frase sobre um tucano na Presidência, que faria todo o esforço para a vitória do seu partido e para esclarecer os eleitores sobre a inconveniência de eleger o adversário. Lula sabe que ninguém manda no processo eleitoral. São os eleitores que decidem se alguém ocupará a Presidência. Foi só um rápido surto autoritário, talvez estimulado pelo tom de programa de TV, luzes e uma plateia receptiva.

Se o candidato tucano for, como tudo indica, o senador Aécio Neves, também eu, em trincheira diferente da de Lula, farei todo o esforço para que o tucano não chegue à Presidência. Aécio foi um dos artífices na batalha para poupar Sérgio Cabral da CPI e confirmou, com essa manobra, a suspeita de que não é muito diferente do PT no que diz respeito aos critérios de alianças e ao uso da corrupção dos aliados para fortalecer seu projeto de poder. Tudo o que se pode fazer, porém, é tornar clara a situação para o eleitor, pois só ele, em sua soberania, vai decidir quem será o eleito.

Na verdade, essa batalha será travada também na esfera da economia. Vivemos um momento singular na História do mundo. A crise mundial opõe defensores da austeridade, como Angela Merkel, e os que defendem mais gastos e investimentos, dentro da visão keynesiana de que a austeridade deve ser implantada no auge do crescimento, e não durante o período depressivo. O PT dirigiu o País num período de crescimento e muitos gastos, não tanto no investimento, mas no consumo. É possível que esse modelo de estímulo à economia tenha alcançado seus limites.

Muito possivelmente, ainda, o curso dos acontecimentos não dependerá tanto da vontade de Lula nem dos nossos esforços individuais. A democracia prevê alternância no poder. E a análise de como essa alternância se dá na prática revela, em muitos casos, uma gangorra entre austeridade e gastança. De modo geral, a crise derrota um governo austero e coloca seu oposto no poder, como na França. Mas às vezes derrota um governo social-democrata e elege seu adversário direto, como na Espanha.

Pode ser que o esgotamento do modelo de estímulo ao consumo abra espaço para discurso de reformas fiscal e trabalhista, de foco em educação e infraestrutura, enfim, de uma fase de austeridade. E não é totalmente impossível que um partido de oposição chegue ao governo. Restaria ao PT, nesse caso, um grande consolo: ao cabo de um período de austeridade, o partido teria grandes chances de voltar ao poder com seu discurso do "conosco ninguém pode", do "vamos que vamos", "nunca antes neste país"... Não estou afirmando que esse mecanismo vai prevalecer, é uma das possibilidades no horizonte. A outra é o próprio PT assumir algumas das diretivas de austeridade e conduzir o processo sem necessariamente deixar o poder.

Por mais que a crise seja aguda, o apelo ao consumo e à manutenção de intensas políticas sociais é muito forte na imaginação popular. O discurso de austeridade só tem espaço eleitoral quando as coisas parecem ter degringolado.

O futuro está aberto e não será definido pela exclusiva vontade de Lula. Com todo o respeito ao Ratinho e sua plateia, o povo brasileiro é mais diverso e complexo. Se é verdade que a História não se define nas academias intelectuais, isso não significa que ela tenha passado a ser resolvida nos programas de auditório.

No script do socialismo real o proletariado foi substituído pelo partido, o partido pelo comitê central e o comitê central por um só homem. No script da social-democracia tropical Lula substituiu o proletariado, o partido, o comitê central e o próprio povo brasileiro ao dizer que não deixará um tucano voltar à Presidência. Se avaliar com tranquilidade o que disse, Lula vai perceber que sua frase não passa de uma bravata.

O que faz um homem tão popular e bem-sucedido bravatear no Programa do Ratinho é um mistério da mente humana que não tenho condições de decifrar. A única pista que me vem à cabeça está na sabedoria grega: os deuses primeiro enlouquecem aqueles a quem querem destruir.

LEIA MAIS NO ESTADÃO:

sexta-feira, 8 de junho de 2012

LULA E O MENSALÃO. Julgamento começa em agosto.



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ELIZE KITANO MATSUNAGA: UM CASO DE AMOR AOS PEDAÇOS. A dramática história do empresário Marcos Kitano Matsunaga, dono da Yoki, morto com um tiro na cabeça, esquartejado e espalhado em sacos de lixo pela Grande São Paulo. Elize, ré confessa, disse à polícia que agiu sozinha. Mais um caso de amor, traição e ódio, digno de Nelson Rodrigues.

VIDEO BANDNEWS - ATUALIZADO EM 12 DE JUNHO, 00H12



FANTÁSTICO: TV GLOBO

O cinema e a literatura de suspense nos apresentam muitos casos de criminosos com a mente brilhante, frios, e sortudos. Seus crimes quase nunca são esclarecidos, desafiando a genialidade dos investigadores e a ciência aplicada nas investigações. Mas, mesmo na realidade, fora das telas e das páginas de contos policiais, fatos assim acontecem, deixando os investigadores em um beco sem saída.

Desta vez, porém, na história real de Elize e Matsunaga, detalhes deixados de lado por Elize foram o suficiente para que ela se complicasse de tal modo que não havia outra coisa a fazer que confessar o crime.

O caso do empresário Marcos Kitano Matsunaga parece ser um bom exemplo de como os fatos acontecem na realidade, longe da literatura fantasiosa, e quando as coisas não andam bem em família. O ódio cega e uma pessoa cega de ódio comete besteiras e deixa rastros e sinais, que não escapam ao investigadores atentos. Ainda mais em tempos de alta tecnologia.

O DESAPARECIMENTO DE MATSUNAGA

Marcos Matsunaga desapareceu no dia 20 de maio. A família chegou a pensar que tivesse sido vítima de um seqüestro; mas o pedido de resgate nunca foi feito.

Alguns dias depois, perto de uma semana, partes do corpo do empresário começaram a ser encontradas na zona rural de Cotia, na Grande São Paulo, em sacos plásticos de lixo. Todas as sacolas demandaram quatro dias de buscas, até que todos os pedaços do corpo fossem localizados. Finalmente identificado, a polícia passou a investigar o que teria acontecido, de fato, com o empresário, morto com um tiro e esquartejado.

Alguns levantamentos foram suficientes, pelo que se lê, para que a polícia solicitasse a prisão temporária de sua mulher, Elize Araújo Kitano Matsunaga, 38 anos, como suspeita.

A polícia fez buscas no apartamento de Matsunaga e foram encontrados sacos plásticos idênticos aos que teriam sido usados para colocar partes do corpo da vítima.

Segundo as investigações da Delegacia de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), após o corpo ter sido encontrado, mas antes de ser presa como suspeita, Elize entregou armas da coleção pessoal do executivo para a Guarda Civil Metropolitana, alegando que queria que elas fossem destruídas para contribuir com a campanha nacional do desarmamento.

Vê-se que ela nem imaginava que seria presa ainda no mesmo dia, mais tarde. E, evidentemente, deixou uma marca rastreável, ao entregar três armas para uma suposta destruição. Será que ela pensou que as armas seriam destruídas de imediato?

Segundo pessoas ligadas ao casal, ela era ciumenta e nas últimas semanas vinha agindo de um modo estranho porque suspeitava que o marido tinha uma amante. Elize e Marcos estavam juntos há cerca de três anos e tinham uma filha de perto de um ano de idade. Marcos também era pai de uma criança de três anos, do casamento anterior.

Segundo as investigações, enquanto esteve casado com primeira esposa já tinha Elize como amante. Matérias da TV informam que Elize teria sido garota de programas. Marcos Kitano Matsunaga, era herdeiro de um dos maiores grupos alimentícios do país. Uma semana antes do seu desaparecimento a empresa dele havia sido vendida para um grupo alimentício norte-americano por cerca de R$ 2,2 bilhões.

De acordo com informações do canal Globonews, ela disse haver cometido o crime sozinha e esquartejado o homem no quarto da empregada, na cobertura em que morava o casal, na capital paulista.

Ele era diretor executivo da Yoki, uma gigante do setor de alimentos, e foi morto em 20 de maio. A confissão ocorreu durante o interrogatório de Elize no Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP) da Polícia Civil de São Paulo, que começou às 11 horas. Ela está presa desde segunda-feira e a polícia informou hoje que pedirá o prolongamento da prisão por mais trinta dias.

CÂMERAS INDISCRETAS

Imagens captadas pelas câmeras de segurança do edifício, que não foram divulgadas, incriminam Elize, segundo a polícia. Elas mostram a chegada do casal ao prédio com a filha de um ano e a babá no dia 19 de maio.

Algum tempo depois, a babá e a empregada deixam o local e Matsunaga desce para pegar uma pizza. É a última imagem dele vivo. Para a polícia, ele foi morto dentro do próprio apartamento. Em cenas gravadas no elevador, ele desce para pegar a pizza e demonstra estar nervoso, dando chutes na parede do elevador. 
No outro dia, Elize foi filmada saindo pela manhã com três malas com rodinhas. Retornou à noite, sem as malas.

Depois de rodar 140 quilômetros, desde São Paulo, ela conta que resolveu voltar, porque havia deixado a filha com as empregadas. Então começou a se desfazer das sacolas, que seriam encontradas dias depois.

Ela foi parada e multada, mas naquele dia, Matsubara ainda era apenas um desaparecido e não havia sido encontrado. Ela era uma senhora viajando ao Paraná, não uma suspeita ou fugitiva. Assim, como o licenciamento estava vencido a apenas 20 dias, ela pode seguir viagem. O limite legal é de 30 dias para fazer o licenciamento, após vencido.

As malas com os pedaços de seu marido ainda estavam no carro àquela altura, pois Elize não havia se livrado de Marcos.

PROSTITUTAS

Elize contratou um detetive que enviou a ela fotos e relatórios sobre três supostas amantes de Marcos. No computador da vítima, peritos identificaram acessos a sites de prostituição. Isso a teria deixado profundamente irritada. Existem muitas histórias sobre prostitutas ou mulheres de programa que deixam aquea vida e tentam a estabilidade do casamento. 

Segundo a imprensa, Elize teria sido garota de programas e conhecido Marcos quando ele era casado, tornando-se sua amante. Depois ele separou-se e casou-se com ela. O que move as pessoas? Carência de´algo? Insatisfação? O que o empresário enconctrava em garotas de programa que parecia o interessar tanto? Os diabos dentro de nós... 

Ocorre que, pelo visto, ele não conseguiu manter-se fiel a Eize, a julgar pelas informações de que um detetive particular teria seguido o empresário e levantado informações e feito fotos comprometedoras enviadas a Elize, que teria ficado furiosa.    

Bem, o que temos visto na TV é sinal de um ódio sem limites. Não é qualquer pessoa que atira em outra, deixa o corpo descansar por dez horas, faz um esquartejamento com uma faca, coloca os pedaços em sacos e malas e sai para se desvencilhar dos restos do corpo. Além disso limpa tudo e finge que o marido sumiu de casa. Parece coisa de profissional, mas sabemos que não é verdade.


CORAGEM E FALTA DE JUÍZO

É preciso muita coragem, ou falta de juízo, para matar alguém daquele modo. É preciso muito descontrole, ou seria isso cálculo? Seria sinal de cálculo, frieza, matar alguém com um tiro na testa, demorar a esquartejar o corpo para evitar esguichos de sangue, inventar a história do sumiço, a viagem, etc? Por mais cálculo que houvesse na história, vê-se que ela não se lembrou das câmaras, que poderia ter sido vista com as malas, a espalhar sacos de lixo, dos produtos usados pela polícia para encontrar sinais de sangue.


A polícia aponta três principais indícios contra Elize

As imagens do circuito interno do prédio onde o casal morava mostram Elise descendo no elevador com três grandes malas no dia 20 de maio às 11h30 da manhã. Ela retorna apenas às 23h50, sem as malas. A última imagem do circuito que mostra o diretor da Yoki é das 19h30 do dia anterior, quando desceu à portaria para apanhar uma pizza. Depois disso, ele desapareceu.

A segunda é o tipo do saco plástico azul com bordas vermelhas que embalava os pedaços do corpo de Marcos. “É um saco específico, importado. Encontramos o mesmo tipo no apartamento”, disse o delegado Carrasco.

O terceiro indício é o tiro na cabeça de Marcos, feito com uma arma de fogo calibre .765. “Elise procurou a Guarda Civil Municipal para entregar três armas da coleção de Marcos para serem destruídas. Entre elas estava uma pistola do mesmo calibre usado para assassinar Marcos”, disse Carrasco.

E, depois de tudo, a própria confissão dela.

IRONIAS DO DESTINO

Uma delas é que Marcos deu de presente a Elize a arma que acabou sendo usada por ela para acertar a sua testa, uma pistola 380. Além disso, ele a levou a fazer curso de tiro e, segundo o delegado, ela atirava bem.

Marcos havia transformado um banheiro em um cofre e ali guardava verdadeiro arsenal de mais de 30 armas e milhares de munições. Ele era um colecionador de armas registrado e as armas estavam legalizadas. Havia até fuzis militares, segundo a TV.

Facas, armas de fogo, prostitutas, amor, paixão, traição, ódio e temperamentos explosivos, temos aí uma excelente combinação para mais um drama ao estilo Nelson Rodrigues.

Foi nesse contexto que Elize acabou matando seu marido. Tentando limpar os rastros do crime, subestimando a polícia, ou ignorando as técnicas de investigação, deixou de pensar nas onipresentes câmaras de vigilância, e em detalhes bobos quanto alguém que entra em casa e não sai mais para trabalhar, como aconteceu com Marcs Matsunaga.

Cedo ou tarde as suspeitas chegariam até o seu endereço. E ela teria que abrir a porta para a polícia. 

DILTA ARAÚJO, MÃE DE ELIZE ESTÁ CHOCADA

A mãe não entende o que a filha fez.



VIDEO -  FAMILIA CHEGANDO:
 

ELIZE E AS MALAS

A DEFESA DE ELIZE


UMA HISTÓRIA DE TRAIÇÃO E ÓDIO


VEJA AQUI A REPORTAGEM COMPLETA DO FANTÁSTICO DE 10 DE JUNHO:
http://www.youtube.com/watch?v=JCYQP0frI0M

Informações de jornais impressos e TV.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

O BRASIL E A LONGA NOITE DA INTELIGÊNCIA. O mais eloqüente indício é o fato de que, num país onde há trinta anos não se publica um romance, uma novela, uma peça de teatro que valha a pena ler, ninguém dê pela falta de uma coisa outrora tão abundante, tão rica nestas plagas, que era a – como se chamava mesmo? – “literatura”.

LONGA NOITE

Olavo de Carvalho
04 Junho 2012

“Todos parecem sentir que a casa está na mais perfeita ordem, e alguns até são loucos o bastante para acreditar que o grande sinal de saúde cultural do país são eles próprios.”      

Se há uma coisa que, quanto mais você perde, menos sente falta dela, é a inteligência. Uso a palavra não no sentido vulgar de habilidadezinhas mensuráveis, mas no de percepção da realidade. Quanto menos você percebe, menos percebe que não percebe. Quase que invariavelmente, a perda vem por isso acompanhada de um sentimento de plenitude, de segurança, quase de infalibilidade. É claro: quanto mais burro você fica, menos atina com as contradições e dificuldades, e tudo lhe parece explicável em meia dúzia de palavras. Se as palavras vêm com a chancela da intelligentzia falante, então, meu filho, nada mais no mundo pode se opor à força avassaladora dos chavões que, num estalar de dedos, respondem a todas as perguntas, dirimem todas as dúvidas e instalam, com soberana tranqüilidade, o império do consenso final.

Refiro-me especialmente a expressões como “desigualdade social”, “diversidade”, “fundamentalismo”, “direitos”, “extremismo”, “intolerância”, “tortura”, “medieval”, “racismo”, “ditadura”, “crença religiosa” e similares. O leitor pode, se quiser, completar o repertório mediante breve consulta às seções de opinião da chamada “grande imprensa”. Na mais ousada das hipóteses, não passam de uns vinte ou trinta vocábulos.

Existe algo, entre os céus e a terra, que esses termos não exprimam com perfeição, não expliquem nos seus mais mínimos detalhes, não transmutem em conclusões inabaláveis que só um louco ousaria contestar? Em torno deles gira a mente brasileira hoje em dia, incapaz de conceber o que quer que esteja para além do que esse exíguo vocabulário pode abranger.

Que essas certezas sejam ostentadas por pessoas que ao mesmo tempo fazem profissão-de-fé relativista e até mesmo neguem peremptoriamente a existência de verdades objetivas, eis uma prova suplementar daquilo que eu vinha dizendo: quanto menos você entende, menos entende que não entende. Ao inverso da economia, onde vigora o princípio da escassez, na esfera da inteligência rege o princípio da abundância: quanto mais falta, mais dá a impressão de que sobra. A estupidez completa, se tão sublime ideal se pudesse atingir, corresponderia assim à plena auto-satisfação universal.

http://jborolandlady.wordpress.com/2010/01/09/housewifery-in-1800s/

O mais eloqüente indício é o fato de que, num país onde há trinta anos não se publica um romance, uma novela, uma peça de teatro que valha a pena ler, ninguém dê pela falta de uma coisa outrora tão abundante, tão rica nestas plagas, que era a – como se chamava mesmo? – “literatura”. Digo que essa entidade sumiu porque – creiam – não cesso de procurá-la. Vasculho catálogos de editoras, reviro a internet em busca de sites literários, leio dezenas de obras de ficção e poesias que seus autores têm o sadismo de me enviar, e no fim das contas encontrei o quê? Nada. Tudo é monstruosamente bobo, vazio, presunçoso e escrito em língua de orangotangos. No máximo aponta aqui e ali algum talento anêmico, que para vingar precisaria ainda de muita leitura, experiência da vida e uns bons tabefes.

Mas, assim como não vejo nenhuma obra de literatura imaginativa que mereça atenção, muito menos deparo, nas resenhas de jornais e nas revistas “de cultura” que não cessam de aparecer, com alguém que se dê conta do descalabro, do supremo escândalo intelectual que é um país de quase duzentos milhões de habitantes, com uma universidade em cada esquina, sem nenhuma literatura superior. Ninguém se mostra assustado, ninguém reclama, ninguém diz um “ai”. Todos parecem sentir que a casa está na mais perfeita ordem, e alguns até são loucos o bastante para acreditar que o grande sinal de saúde cultural do país são eles próprios. Pois não houve até um ministro da Cultura que assegurou estar a nossa produção cultural atravessando um dos seus momentos mais brilhantes, mais criativos? Media, decerto, pelo número de shows de funk.

Estão vendo como, no reino da inteligência, a escassez é abundância?       

Mas o pior não é a penúria quantitativa.           

Da Independência até os anos 70 do século XX, a história social e psicológica do Brasil aparecia, translúcida, na literatura nacional. Lendo os livros de Machado de Assis, Raul Pompéia, Lima Barreto, Antônio de Alcântara Machado, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, Marques Rebelo, José Geraldo Vieira, Ciro dos Anjos, Octávio de Faria, Anníbal M. Machado e tantos outros, obtínhamos a imagem vívida da experiência de ser brasileiro, refletida com toda a variedade das suas manifestações regionais e epocais e com toda a complexidade das relações entre alma e História, indivíduo e sociedade.          

A partir da década de 80, a literatura brasileira desaparece. A complexa e rica imagem da vida nacional que se via nas obras dos melhores escritores é então substituída por um sistema de estereótipos, vulgares e mecânicos até o desespero, infinitamente repetidos pela TV, pelo jornalismo, pelos livros didáticos e pelos discursos dos políticos.          

No mesmo período, o Brasil sofreu mudanças histórico-culturais avassaladoras, que, sem o testemunho da literatura, não podem se integrar no imaginário coletivo nem muito menos tornar-se objeto de reflexão. Foram trinta anos de metamorfoses vividas em estado de sono hipnótico, talvez irrecuperáveis para sempre.          

O tom de certeza definitiva com que qualquer bobagem politicamente correta se apresenta hoje como o nec plus ultra da inteligência humana jamais teria se tornado possível sem esse longo período de entorpecimento e de trevas, essa longa noite da inteligência, ao fim da qual estava perdida a simples capacidade de discernir entre o normal e o aberrante, o sensato e o absurdo, a obviedade gritante e o ilogismo impenetrável. 

Publicado no Diário do Comércio.

TEXTO REPRODUZIDO DO SITE MÍDIA SEM MÁSCARA:

JULGAMENTO DO MENSALÃO DO PT COMEÇA EM AGOSTO. Mas muita calma, doutores, nãohá tanta pressa assim...

http://www.sponholz.arq.br/

CIRCO: O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA. AGORA EM BRASÍLIA.

Se cercar vira hospício, se cobrir vira circo
http://www.sponholz.arq.br/

A ONDA DOS NOVOS CANIBAIS. Ou, a escolinha de maldade do doutor Hannibal Lecter tem alunos aplicados. Os canibais sempre existiram, a comunicação moderna apenas os revelou. Mas há quem acredite que os meios de comunicação estimulam novos casos.



HANNIBAL LECTER: MAU EXEMPLO OU PERSONAGEM INCONSEQUENTE? 
Nos últimos tempos não passa um mês e surge uma nova história repugnante sobre canibalismo em algum lugar do mundo. Os meios de comunicação noticiam e tratam do tema à exaustão, criando a impressão de que há canibais por todos os lados, o tempo todo.

Os casos são realmente escabrosos, denotando imensa crueldade ou insanidade por parte dos autores. Parece que alunos e fãs do doutor Hannibal Lecter resolveram sair de casa e agir com extrema maldade, espalhando o pânico.

O canibalismo acompanha o homem desde o início dos tempos, certamente, segundo já verificaram pesquisadores da Cultura, mas de forma ritualística, tribal, talvez com origem religiosa, ou movido a crenças relativas à transferência de qualidades (bravura, coragem) dos mortos.

Há muitas imagens antigas que demonstram que a pratica canibal fez parte de culturas antigas, muitas delas desaparecidas. Alguns grupos primitivos ainda mantinham o canibalismo ritualístico até o século XIX ou início dos XX, quando foram contatados por estudiosos e pesquisadores.

Um dos relatos mais conhecidos sobre o canibalismo, no Brasil, por exemplo, data do Século XVI, feito pelo marinheiro alemão Hans Staden, aventureiro que esteve duas vezes por aqui. Na segunda vez acabou prisioneiro de índios antropófagos, no litoral de São Paulo, e foi tratado como comida, até que, depois de muitas tentativas, conseguiu escapar e voltar para a Europa, onde publicou um dos primeiros livros sobre o Brasil, falando de suas aventuras, e dos canibais.

Sempre imagino que o livro de Hans Staden, que vendeu milhares de cópias naquele tempo!, foi um dos fatores de alimentação do imaginário europeu sobre que o Brasil é uma selva com índios nus, cobras e feras andando pelas ruas. Nunca duvidem da força das narrativas no imaginário humano!

CULPA DA MÍDIA?

Os casos que a imprensa relata e o cinema e a TV exploram, como filmes e documentários, são diferentes do canibalismo tribal. Parece ser um tipo de comportamento perverso, alguns explicados por problemas de ordem sexual, onde o assassino só encontra satisfação completa comendo, literalmente, o outro, destroçando seu corpo.

ARMIN MEIWES, O TENEBROSO
CANIBAL ALEMÃO
O assassino parece que está em busca de algum troféu, com um comportamento que lembra o do monstro do cinema, o Predador, que colecionava ossos de suas vitimas.

Entre leigos, e mesmo entre estudiosos da Comunicação, há quem aponte o dedo para o mau exemplo dado pelo cinema, ou por reportagens tratando dos casos mais horripilantes. 

Mas sempre ficará aquela velha questão sobre se a vida imita a arte, ou é a arte que imita a vida.

Muita gente crê que pessoas mais influenciáveis ou mais frágeis à exposição aos meios de comunicação possam querer imitar aquilo que vêem. É claro que é uma fantasia tola, uma vez que se a coisa fosse assim tão simplista todos agiríamos como verdadeiros monstros, copiando todos os comportamentos errados e perversos que vemos no cinema e na TV e, agora, também nos veículo que usam a Internet.

A idéia da copia direta está baseado no que se chama de comportamento mimético, copia pura e simples. É claro que o comportamento mimético é observado no mundo natural e na cultura (não há pencas de jovens com o cabelo no estilo Neymar?

O mimetismo, aliás, como já havia observado o sociólogo alemão George Simmel, no início do Século XX!, pode estar na base do comportamento imitativo em relação à moda. Mas uma coisa é uma pessoa comum copiar um estilo,um corte de cabelo, outra é copiar um comportamento perverso como de um canibal.

Pode ser que o imaginário de pessoas perversas seja alimentado por fantasias provenientes de filmes e da TV? Sim, é razoável como hipótese. Mas se tais pessoas já não forem perturbadas naturalmente, já não tiverem suas taras produzidas por falhas de produção da estrutura da mente, ou seja, não forem más por natureza, não se transformariam em canibais sádicos e cruéis. Sentimos nojo, horror, ojeriza por tais crimes, quando lemos sobre eles.

Quem disser que os cometeu apenas por ter assistido o Predador ou Hannibal Lecter, ou leu sobre  os bárbaros crimes que têm sido divulgados sobre comportamento canibal estará mentindo. O mal nunca está lá fora, ele sempre poderá estar, ou não, dentro de  cada um de nós.

VEJA AQUI OS PIORES CANIBAIS DOS ÚLTIMOS TEMPOS: